Kurt Cobain - Retrato de Uma Ausência foge do óbvio

A troca de imagens da banda por cenas rotineiras e personagens típicos das três cidades fundamentais para a história de Kurt e do Nirvana pode passar a impressão de que o documentário vai seguir modorrento a partir dos primeiros minutos. Mas foi uma boa solução encontrada pelo diretor e roteirista AJ Schnack (também autor do livro “Our Band CoulD be Your Life”) por estar somada às próprias impressões de Kurt. Do mezzo punk mezzo geek de Aberdeen, louco de vontade de encher de tapas os caipiras da cidade mas sem físico e coragem suficientes para isso, passando pelo aspirante de estrela entediado do subterrâneo do rock na Olympia cultural, forrada de cafés descolados e artistas presunçosos, à estrela ascendente, paranóica e desajustada em Seattle, a excursão faz total sentido por situar social e geograficamente todo o caminho trilhado por Kurt, até a manhã em que foi encontrado com os miolos para fora pelo eletricista de sua casa, no subúrbio da capital do grunge.

Ao fugir do óbvio - cenas de shows, bastidores, loucura roqueira suarenta em backstages - “Retrato de Uma Ausência” insere com êxito poucas vezes visto o espectador na história pessoal de um artista como Kurt Cobain. Seus dramas pessoais e sua insegurança se tornam ainda mais palpáveis quando narrados apenas por sua voz (que muda da fraqueza para a valentia e retorna à insegurança em segundos) e ilustrados por cenas da vida corriqueira e ordinária, essa que às vezes cisma em ser cruel e injusta até ultrapassar o limite do suportável.

Mais do que os manjados clichês a respeito da fama que ele não tolerou ao ponto de acabar com a própria vida, o documentário mostra que o tiro na cabeça começou a ser disparado lá atrás, pelas mãos de um pai que conseguiu ser um imbecil violento e ausente quase ao mesmo tempo e pela igual ausência cruel de suporte afetivo e até mesmo psíquico. E lembrar que há apenas alguns dias o mundo parava para assistir outra morte, a de um popstar ainda mais gigante que Kurt Cobain, com uma história que possui poucos, mas alguns ingredientes relativamente semelhantes.

por Filipe Albuquerque, do Bis

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