Roman Polanski: ninguém é inocente
Uma mãe leva a filha na casa de famoso artista. A menina tem treze, o bacana 43. A mãe quer que a menina seja modelo, seja famosa, entre no mundo dos famosos. O artista é um conquistador e famoso por andar com uma turma de hippies malucos, celebridades da contracultura, que vivem na base de sexo livre, drogas pesadas e rock’n’roll sem fim.
O cara pede permissão para fazer uma sessão de fotos com a menina, particular, sem a presença da mãe. O ensaio sairá na Vogue. A mãe permite. O que aconteceu depois só se sabe pela versão da menina. Ela disse depois em depoimento para a polícia que Roman Polanski pediu para que ela tirasse a blusa, ela tirou; que se trocasse na frente dele; o que ela fez; convidou-a para tomar champagne, drogas e entrar com ele em uma jacuzzi, e assim foi.
E que depois, contra sua vontade, Polanski fez sexo oral e anal com Samantha. É estupro. Se você provar, claro. Não houve chance.
Polanski, que tem nacionalidade francesa e polonesa, fugiu dos Estados Unidos e nunca mais voltou. Isso foi em 77. Sábado passado, Polanski foi preso em Zurique, onde estava participando de um Festival de cinema e seria homenageado por sua obra. Ele tem casa na Suíça desde 1978. Foi a pedido de autoridades americanas, que querem que ele seja extraditado para os EUA.
Se isso acontecer, Polanski morre na cadeia. Tem 76 anos. A luta pela libertação de Roman Polanski já virou causa célebre. Intelectuais europeus se mobilizaram nesta segunda. São dois abaixo-assinados. O manifesto “Libertem Polanski” já tem assinaturas de alguns dos maiores diretores de cinema do planeta, como Woody Allen, Ettore Scola, Costa-Gavras, Wong Kar-Wai, Martin Scorsese e Giuseppe Tornatore.
Tem o apoio dos governos da França e da Polônia, que já pediram oficialmente a interferência da secretária de estado americana, Hillary Clinton.
A história de Polanski
A vida de qualquer um dá um livro. A vida de Polanski, vários. O pai era um judeu polonês. A mãe, judia russa, mas criada como católica. Adultos, os dois eram agnósticos. Roman nasceu em Paris, mas os pais logo se mudaram para a polônia. Hitler invadiu o país. A família foi parar no gueto de Cracóvia. Pai e mãe foram enviados para a campos de concentração diferentes. A mãe morreu em Auschwitz, o pai conseguiu fugir.
Com dez anos, Roman escapou do gueto. Foi ajudado por famílias católicas até reencontrar o pai após a guerra.
A esta altura, a Polônia já tinha sido anexada pela Rússia – estava atrás da famosa cortina de ferro, sob domínio de Stalin. Polanski cresceu sob uma ditadura burra e cruel. Tentou atuar, estudou cinema, fez pequenos filmes e logo, grandes. Seu primeiro longa-metragem, Faca na Água, se sustenta até hoje.
Os três filmes que rodou assim que se mudou para a Inglaterra são obrigatórios para qualquer um que goste de cinema (e mulheres lindas):Repulsa ao Sexo (Catherine Deneuve!), Cul-De-Sac (Françoise Dorleac!) eA Dança dos Vampiros (Sharon Tate!).
Já podia acabar aí o filme: “sobrevivente do Holocausto ascende ao primeiro time do cinema mundial.” Mas Polanski se mudou para os Estados Unidos e fez O Bebê de Rosemary, um grande sucesso comercial. Vivendo em Los Angeles, se casou com Sharon Tate. Grávida de oito meses de seu primeiro filho, um menino, ela foi assassinada cruelmente por um grupo de hippies celerados, comandados pelo psicopata Charles Manson.
Foi sacrificada por nada. E a maior parte da obra de Polanski ainda estava por vir. Um Macbeth assustador, o perturbador O Inquilino, cinemão convencional como Lua de Fel e Busca Frenética e finalmente a consagração formal da academia, com prêmios em Cannes e o Oscar de melhor diretor para O Pianista.
Polanski pode morrer cumprindo pena como estuprador, o que é um inferno em qualquer cadeia do planeta e nos EUA também. Pode acabar sendo libertado, graças à pressão internacional. O caso do estupro nunca será esquecido, de qualquer forma. Mesmo que a menina, hoje adulta, tenha perdoado o diretor. Em 2003, Samantha Geimer deu uma entrevista dizendo que “sei que ele se arrependeu.
Ele não é um perigo para a sociedade, não tem porque ser preso. Foi trinta anos atrás. É uma memória desagradável para mim, mas posso viver com ela.”
O moleque mais feliz da Terra
Eu tenho um filho. Ele convive com meninas mais velhas, de onze, doze anos. Sexo com meninas de treze anos não faz sentido nenhum para mim, que tenho hoje a idade de Roman quando rolou a história com Samanha. Mas fazia todo sentido – pelo menos em termos de fantasia – quando eu tinha treze anos, e catorze e quinze, porque eram as meninas com quem eu convivia. Se a mocinha ali da primeira fila do meu primeiro colegial resolvesse dar para mim eu teria sido o moleque mais feliz da Terra.
Não deu, puxa, que pena. O fato é que meninos e meninas de treze anos têm vida sexual ativa, sejam virgens ou não. É fato que se perde a virgindade cada vez mais cedo, e que a molecada transa com mais gente do que antigamente. E essas meninas normalmente vão transar com caras mais velhos. É fato que meninos e meninas estão amadurecendo mais cedo – as meninas inclusive menstruando mais cedo. Ligue a televisão ou vá ao ponto de ônibus da esquina: o mundo está cheio de adolescentes desejáveis por gente de qualquer idade.
Esses dias, soube a história de uma menina de catorze anos que transou com um namorado de dezesseis. Os dois filmaram tudo. Depois brigaram. O moleque botou o vídeo na internet. A menina não pode sair de casa, a cidade é pequena, e ela virou o comentário do lugar. O garoto, claro, virou herói dos amigos. E se eu fosse contar aqui quantos casos de meninas menores de idade grávidas que já conheci, de todas as classes sociais, ficava aqui escrevendo uma semana.
O que eu quero dizer aqui é o seguinte: as leis são estúpidas. Uma menina de treze anos pode transar com um cara de dezessete, mas uma menina de dezessete que transar com um cara de dezenove foi estuprada?
Isso não tem sentido nenhum. Na roda de Polanski nos anos 70, o sexo casual era a norma, drogas recreativas eram rotina e a vida era bela. Sua turma – Jack Nicholson, Warren Beatty e companhia – eram da pesada, famosos e charmosos, e a mulherada fazia fila para transar com os caras. Mais novas ou mais velhas, nunca foi problema.
Polanski, bêbado e chapado, avançou o sinal com Samantha – ou era a regra pegar meninas menores de idade? Eu desconfio que era e é a regra. No mundo do rock, teenagers perseguirem seus ídolos até a cama é trivial. E tenho certeza que milhares de teenagers brasileiras dariam em um piscar de olhos para o galã da novela ou mesmo o professor charmosão. E aí, exatamente qual é o problema?
A revolução sexual dos anos 60 não aconteceu nos anos 60 – começou. Mas ainda não chegou em vários cantos do mundo e mesmo onde chegou, ainda não foi devidamente absorvida. As sociedades, mesmo as mais avançadas, não se adaptaram do ponto de vista institucional às mudanças reais de comportamento das pessoas, jovens de então e jovens de hoje. A hipocrisia e o machismo ainda são muito fortes.
Preferimos sempre tampar o sol com a peneira. Essa história é exemplar. Polanski sabia o que estava fazendo, mas era confortável pensar que não estava fazendo nada errado – todo mundo faz a mesma coisa, certo? A menina sabia o que estava fazendo.
Tanto quanto uma menina de treze anos possa ter consciência do que está fazendo. Mas não foi sequestrada e nem, pelo seu depoimento, forçada, a não ser nos últimos minutos. A mãe dela sabia muito bem o que estava fazendo – deixou a filhinha sozinha com Polanski achando que eles iam fazer o quê, pular amarelinha? Todo mundo é culpado. Todo mundo é inocente. O mundo é complicado.
E mais de trinta anos depois, o menino que escapou do gueto, hoje um velho coroado de glórias e admirado por seus pares, está numa cela. Talvez Roman Polanski seja assombrado pelo epitáfio de seu filme mais famoso, o momento que resume nossa impotência, dominados que somos por pulsões primitivas, incapazes de lidar com a complexidade do mundo:
“Esquece, Jake, é Chinatown.”
Por André Forastieri






























querido!
eu sei que tem que levar em consideração o contexto mas vamos combinar…se um cara de 43 pega sua filha de 13 (não que vc tenha entregue como a traira da mão da garota), e convence a garota a beber e depois tomar uma coisinha qualquer para ficar animada e leva sua filhinha para a banheira (mesmo que ela já tenha transado com a rua toda), você ia ficar puto…..
a verdade é que por mais que vc ache que as garotas e garotos de hoje aos 12, 13, 14, 15 e assim vai saibam o que estão fazendo vamos deixar claro que na idade em que estamos conseguimos evar qualquer um deles no bico….e amigo…a lei é a lei….deve ser igual para todo mundo…se o bandido entra na sua casa e canta a sua filha e transa com ela (mesmo que ela deixe), vcvai querer que ele apodreça na cadeia…..adoro o polanski como cineasta….mas o cara literalmente enganou uma garota que, para completar, tem uma mãe que ninguém merece