Entrevista: Robert Downey Jr. e Jude Law - a reinvenção de Sherlock

Dois livros grossos. Cada palavra que Arthur Conan Doyle já escreveu sobre a sua maior criação, Sherlock Holmes. O grande detetive. Uma das séries literárias mais adaptadas de todos os tempos. E claro, fonte do apelido que venho usando como meu alterego no site Ain’t It Cool News há mais de uma década.

Esse foi o material de leitura que levei para o meu voo de Los Angeles até Londres. Meu plano era mergulhar no mundo de Holmes para ter uma ideia do que esperar assim que eu chegasse ao set de filmagens com base no verdadeiro mestre, Doyle, e fazer uma boa comparação. Porque com Holmes, mais do que quase qualquer outro personagem a não ser talvez pelo Superman, você está lidando com diversas pré-concepções do público. E isso significa que independente do que você faça ou da forma que o seu Sherlock Holmes venha a ter, o resultado será sempre diferente do que alguém esperava, e isso abre espaço para decepções. Você ganha muito carisma entre o público ao trabalhar com um personagem como esse, mas também precisa aceitar uma certa bagagem.


No dia seguinte, eu estava em uma sala no andar superior de um espaço industrial no coração de Londres que havia sido transformado em um abatedouro para as filmagens do dia. Bem na minha frente, tentando ficar perto do enorme aquecedor instalado ali para nós três, Robert Downey Jr. e Jude Law estavam com seus trajes completos como Sherlock Holmes e dr. John Watson, seu melhor amigo e colega de profissão.
Downey ficou me provocando o tempo inteiro por eu ser Moriarty enquanto subíamos pela escada. Ele parecia estar se divertindo e era estranho vê-lo assim tão descontraído depois de ter acompanhado a jornada pela qual ele passou no último ano com Homem de FerroTrovão Tropical.
Uma mulher perguntou se queríamos alguma coisa para beber. Law pensou um pouco, esfregando as mãos para tentar se aquecer. “Um cappuccino.” Robert fez um pedido muito mais complicado de algo que ela nunca tinha ouvido falar e, enquanto ele tentava explicar, eu me sentei e preparei a fita no gravador.

Moriarty: Bom, eles me mostraram algumas cenas. Eu vi a luta com o Drudger. E a perseguição até o final da sequência no barco. E depois…
Robert Downey Jr.: O Drudger. Porque isso é bem a cara dele, não é?
Watson é muito importante e parte do processo para acertar nesse filme é acertar com Watson.
Bom, nós concordamos. (risos)
Isso é uma forte indicação do quanto o material original foi bem compreendido e de uma determinada abordagem específica.

Jude Law: Bom, esse é o poder do filme, não é? Porque mesmo sem ter assistido muito, todos nós estamos impregnados pela iconografia dos filmes de Basil Rathbone. Os filmes de Holmes são isso. E pra ser sincero, fiquei espantado quando voltei e comecei a ouvir as peças de rádio e ler as histórias… e a ver que Watson estava longe de ser um bobalhão qualquer… então, é claro que eu fico muito contente em ouvir isso que você disse. Porque é isso o que Robert e Guy viram quando me convidaram para o filme. Eu embarquei no projeto para trabalhar com esses dois caras incríveis. E o que eu encontrei quando fui atrás do material original me fez pensar, “Nossa, este é um papel que nunca foi explorado porque sempre acabou caindo na mão de atores gordinhos que só faziam trapalhadas em vez de abraçarem a ideia de vê-lo como um soldado, um ajudante, um confidente e… como se chama? Um catalisador.”

RDJ: Mas a culpa não é só deles. Historicamente, os arquétipos tiveram que ser usados assim nos anos trinta e quarenta. Os elencos eram escalados assim… com polos opostos. Mas nós não, nós queremos dois caras que realmente se apoiem, dois caras que formem uma terceira entidade. O que é muito… Bom, eles sabem contar as histórias dos casos, eles enfrentam esses casos e eles resolvem esses casos, então…

Na Londres desse filme as pontes estão sendo construídas. O novo está tomando o lugar do velho. E não tem nada a ver com salões luxuosos ou chás da tarde.
JL: Bom, mais uma vez, isso faz parte daquilo que torna essas histórias tão criativas e originais, certo? Não tem nada a ver o mundo da alta sociedade. Nós temos um cara… Você sabe, eles começaram a trabalhar juntos só porque não tinham dinheiro para pagar um escritório sozinhos. E o mundo no qual eles se aventuram é um mundo de criminosos, assassinos e prostitutas…

RDJ: E os personagens. Cara, se nós fizermos isso certo, depois podemos usar os Irregulares de Baker Street. Alguns árabes de rua, zanzando por aí e traficando coisas. E queremos usar isso. O engraçado, claro, é que tem uma outra história de três partes que nós estamos discutindo. Levar esses personagens para fora. Levá-los para os Estados Unidos. E o formato disso, é algo até parecido com o formato das coisas de super-heróis que eu venho fazendo. E Holmes é muito mais como um arquétipo do que um personagem com o qual você se identifica. E aí você volta para os livros de Doyle e encontra um material muito rico para usar. São histórias que têm vida própria e tudo o que você precisa é fazer jus a elas. É como um bebê que te diz o que quer.

Adoro ver como as pessoas se apegaram tanto a Sherlock como se ele fosse real. E como elas ficaram tristes quando ele morreu…

A entrevista é interrompida pela produção…

“Acho que vamos precisar que vocês lá embaixo de novo.”

RDJ: Por quê?

“Eles precisam de vocês para a marcação de cena.”

“RDJ: Mas nós acabamos de filmar.

“Eles precisam de vocês para o ensaio.”

RDJ: Eles querem que a gente ensaie o que acabamos de filmar? Pra que servem os nossos dublês? Posso ter um ataque de raiva agora? Escute, nós ainda nem começamos por aqui. Nós voltamos depois para o segundo round, tá?

Eles repetem a cena mais algumas vezes, com o Watson e o Holmes se preparando para seguirem em direções diferentes para pegar seja lá quem esteja atirando neles. E enquanto eles passavam pelas falas, eu pude jurar que ouvi duas vezes o Downey dizer “Hotson”. E na segunda, Ritchie mandou cortar.
– Robert, você está falando Hotson?
– É claro que não. Eu nunca faria isso.
Lionel me explicou que Robert tinha começado a chamar Jude de “Hotson” pelo Watson tão másculo e bonitão que ele estava fazendo. E que ele agora estava determinado a enfiar isso em algumas cenas finais do filme, apesar dos esforços de Ritchie no sentido contrário.

Assim que terminaram a tomada que estavam tentando fazer, eles foram levados para fora do set e até o andar de cima, e eles já estavam se sentando quando eu voltei para a sala. Robert estava enrolando um cigarro quando eu entrei.

Downey Jr., Guy Ritchie - o diretor, e Jude Law

Quanto tempo vocês tiveram para se prepararem juntos? Vocês fizeram alguma coisa para aprimorar a química entre vocês? É muito importante que o público acredite na amizade entre vocês.
RDJ: Nós começamos a trabalhar assim que nos conhecemos, antes mesmo que ele fosse chamado oficialmente para o projeto, quando nos encontramos em Claridge. Foi uma época muito, muito louca.

JL: (risos) Mas é verdade. Nós começamos logo de cara. E não tivemos tempo na verdade. Existe… existe um grande mito… que você sempre tem tempo para preparar as coisas. E às vezes, claro, isso acontece. Tem um projeto em que estou trabalhando agora para o qual eu tive um ano para me preparar e que ainda vai demorar muito. E é ótimo. Mas a verdade é que às vezes você tem que se ater ao básico. Aos seus instintos.

RDJ: Ou, no nosso caso, nossos instintos selvagens. Grrr!

JL: Mas é sério, sabe? E nós dois chegamos a uma… abordagem… e assim que nós nos sentamos, ficou claro tudo o que teríamos que fazer, o que teríamos que enfrentar. Eu fui muito aberto com o que eu queria fazer com Watson e eles pareceram adorar o que eu estava dizendo, e tudo se encaixou muito bem, e ele se enquadrou como Holmes logo de cara, o jeito como ele falava comigo sobre o que eu estava pensando, e foi assim que tudo começou. E na verdade, nós ainda estamos vendo esse processo evoluir enquanto trabalhamos a cada dia.

RDJ: Esse é o ponto, cara. No final das contas, eu penso, “Ótimo, este é o seu trabalho. Ótimo, você pode agregar coisas. Ótimo, você tem experiência”. E a sua experiência… a esta altura, ela se resume a sacar se você sabe como atuar bem em uma cena, cena após cena. Você precisa estar calmo, mas muito atento também. E você tem que fazer isso toda vez, o dia inteiro. Enquanto estou sentado aqui agora, eu ainda estou pensando no que nós fizemos hoje de manhã, ainda pensando se podemos melhorar aquela cena onde eu jogo aquele alvo antes de ir atrás da Irene.

da Movie

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